It's You - Fireflight

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Contos da cidade -



A chuva estava mais fraca, mas ela continuava com o guarda-chuva. Enquanto passava por um mercado, queria largar todas as suas coisas e andar na chuva, mas estava sujo demais.
Talvez ela não ligasse para a vaidade, mas ligasse para a aparência de bem-estar consigo mesmo.
Com movimentos bruscos e mecânicos, desviava o guarda-chuva de uma árvore ou outro poste.
Sempre pensando onde estava errando. Sou eu o erro? Eu depositei energia demais no lugar errado? Dei valor demais a algo que não vale nada?
Começou a ficar contente quando lembrava de algo que seu namorado tinha contado no dia anterior, já que tinham feito o mesmo percurso juntos.
E ficou mais contente quando chegou em casa. Porém, cansada, fisicamente e psicologicamente.
Não sabia o que fazer. Enquanto fechava a porta da sala, meditava sobre o que iria fazer primeiro. Comer ou tomar um banho? Ir ver seus e-mails, com uma esperança morta que alguém tivesse lembrado de mandar um 'oi, como você está?' já não listava como uma das primeiras coisas a serem feitas. Decidiu ir comer.
Comia com lentidão e muita reflexão. Tornara-se indiferente não só às coisas que lhe poderiam fazer mal, mas também a tudo que poderia lhe causar qualquer outro sentimento.
Essa indiferença era no passado admirada por ela, e a desejou tanto que o desejo a consumiu e a tornou num monstro. Um monstro sem sentimentos, sem amigos.
Era isso o que queria chorar. Sua indiferença.



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Contos da cidade -


E se ele realmente a amasse, o que faria para demonstrar? E se ela realmente o amava? Era verdade esse sentimento? Já havia sentido o amor outrora, mas nunca tão forte nem tão longo e preciso. Precisão. Era o que faltava no momento.
Enquanto andava, segurava o guarda-chuva com força, e com as duas mãos. Alguns meninos à toa diriam que ela era muito pequena para o guarda-chuva, mas ali, ela sentia que estava afastada de uma realidade da qual não queria fazer parte. Se sentia segura. Num mundinho pequeno, no qual ela não precisava mentir, nem ter que concordar para nunca brigar. Podia passar o dia calada só observando as flores ou o mar que ninguém a perguntaria se estava triste.
Quanto mais chegava perto da sua casa, mais triste ficava. Mas não havia porquês de chorar. Não havia força física para se formar uma lágrima. Mas havia uma força muito emocional. Não encontrava um porquê absoluto para chorar.
Eu tenho família, eu tenho uma boa escola, tenho abrigo, tenho comida, atividades, agora tenho um namorado que me ama pelo o que eu sou, e tenho...amigos ?
Se indagou e repetia essa palavra repetidas vezes no vácuo dos pensamentos: amigos.
Não, ela não tinha. Era só uma ilusão.
Ou se tinha, eles não sabiam quem ela realmente era.
Num lugar onde as aparências te movem, onde não compartilhar das modinhas e do mesmo pensamento diz que você é diferente e deve ser descartado, num lugar onde tudo tinha que ser do mesmo jeito, as pessoas se vestem do mesmo jeito, as meninas não têm diferença nenhuma, os meninos são um a cópia do outro, ela não entendia como encontrar um mínimo de ALEGRIA.
Claro que havia exceções, como aquele que sempre te suporta, ou o menino que você acha engraçado. Mas naquele momento nenhum servia para ela. Todos consumiam sua energia sem querer dar nem metade do que ela necessitava para se reabastecer.

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Contos da cidade -


























Quando o metrô chegou, viu que quase todos os vagões estavam cheios. Mas o que parou na frente dela parecia estar mais vazio. Ficou alegre por poder ficar de pé. E não encolhida e encoxada por velhas ou homens gordos. Queria pegar seu livro para ler, mas tinha de segurar tantas coisas. E os turbilhões de dúvidas na cabeça...
Saiu do metrô. E foi seguindo, ainda no automático para sua casa. Chovia mais forte. Muitas meninas agora já tinham desistido de encarar a chuva e esperar que seus pais ou maridos as viessem buscar de carro. Ela saiu, com raiva daquelas meninas, não por obstruírem a passagem, mas obstruírem a visão da mulher verdadeira, que não é consumida pela vaidade, mas a vaidade é um simples ornamento que ela utiliza quando lhe convém.


Abriu o guarda-chuva, não para se proteger da chuva, mas da realidade cinza e dolorosa daquela avenida, daquele momento.
Era um guarda-chuva grande, xadrez de preto e laranja, que o dentista tinha até bricando que combinava com sua calça. Ela simplesmente tinha feito um sorriso cansado de tanta falsidade para não ser chamada de 'sem-graça' e entrado na sala de consultório.
Enquanto passava pelos mesmos lugares que um dia antes tinha passado em êxtase puro com seu amor, sentia um vazio horrendo correndo pelo seu corpo, desdos pés às mãos que seguram o guarda-chuva. Sentia sono. Sono? Talvez não fosse. Ressaca? Muito menos, ela já tinha passado. Cansaço numa hora tão quebrada não era uma desculpa para querer fechar seus olhos!
Quando via que um semáforo estava prestes a fechar, não fazia questão de acelerar. Andava com a mesma vontade de querer deitar ali mesmo e ver a figura de seu salvador, do seu coração.

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Contos da cidade - PARTE 1


Voltava do dentista. Chovia. Não muito, mas o suficiente para as meninas de chapinha ficarem horrorizadas com sua impotência a enfrentar a chuva e perder de 1 a 3 horas de árduo trabalho.
Ela, como não desfrutava desta perda de tempo, andava, mesmo com o guarda-chuva à sua disposição. Se perguntava se não era egoísta poder desfrutar de tal aparato enquanto outras meninas necessitavam dele urgentemente. Concluiu que não era, pois ela era mais prevenida que as meninas que necessitavam dele. Aos que tem muito será dado mais, e aos que nada tem, lhes será tirado o pouco que têm. Pensava ela.
Começou a ouvir seu mp3. Músicas banais, era mais para ver o tempo passar enquanto ela pilotava seu corpo no automático, e vagava pelas lembranças de um fim-de-semana estragado pela rotina semanal.
Percebia que nenhum homem tinha lançado uma tentativa de cantada para irritá-la mais do que já estava naquela tarde. Suas roupas não ajudavam. Estava mais artística do que mulher de verdade. Mas para ela já na importava, já tinha seu homem e ele gostava de tudo o que ela usava.
E percebia que ela também não prestava mais atenção em ninguém, nem em nada. Será que deste jeito, ignorando o universo ao seu redor, ele começa a te ignorar também?
No metrô, viu um casal de gays. Eles estavam tão felizes. E ela tão deslocada. Tinha um namorado que jurara estar apaixonado por todos os dias do futuro. Mas mesmo assim, invejou o amor daquele casal. Eles sofrem tanto mais que ela, e são mais felizes. Mas quem sabe ela não era do mesmo jeito quando estava com seu namorado? Não sabia responder, eram momentos tão só os dois.

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